Sabem, ultimamente eu ando mais calma. Talvez seja a idade. Talvez seja a meditação. Ou talvez sejam os oito longos anos de terapia que, de uma hora para a outra, começou a fazer efeito. O fato é que, de repente, as coisas não costumam mais me afetar como afetavam antes.
Houve um tempo em que eu desejei ardentemente que isso me acontecesse. Eu costumava chamar esse ar “blasè” diante dos acontecimentos de “serenidade”. Manter a calma e a tolerância diante de qualquer situação. Até continuo achando que seja isso mesmo, serenidade... Mas ao mesmo tempo em que fico aliviada em perceber que eu não mais arranco fora todos os meus cabelos quando algo não acontece da forma que eu espero, às vezes tenho saudades do desespero.
Saudades do desespero? Que coisa mais irracional... Mas há algo de apaixonante em estar desesperada. Há algo de profundamente passional em acreditar que, caso as coisas não corram da forma esperada, você vai ter um ataque, pular pela janela, morrer de desgosto. Com o tempo você aprende que as coisas não dependem sempre de você ou da sua vontade. E que quando não dependem de você, se você fizer o melhor que pode e não adiantar, paciência é o único remédio.
Acho que o maior barato do desespero é você acreditar piamente que precisa de que algo externo aconteça para se sentir bem. Mas com as experiências você vai vendo que não pode depender de algo externo para ser feliz. Então, quando as coisas “de fora” não colaboram, você ainda conta com as coisas “de dentro” para segurar a barra.
E você aprende que nada é por acaso, e nem nada é definitivo. Por mais que seja absolutamente impossível pensar nisso quando você leva um fora de um carinha ou quando se dá mal no trabalho, em alguma parte do seu ser esta informação existe. Que você vai sofrer horrores, mas vai sobreviver.
Acho que ando sentindo falta de depositar os requisitos para ser feliz nas coisas “de fora”. Porque ter que contar com as “de dentro” é uma responsabilidade imensa. É uma responsabilidade imensa saber que depende de você ser feliz, que isso não é uma coisa que você possa negociar com uma outra pessoa, que possa comprar na esquina como se fosse um maço de cigarros, que possa implorar pra alguém como se fosse um chiclete, que possa esperar de alguém como se fosse um convite para jantar. Que ser feliz consigo mesma é, ao mesmo tempo, a tarefa mais fácil e mais difícil que existe na vida.
Claro que tudo isso não aconteceu de uma hora para a outra, como talvez eu possa querer aparentar, disfarçando as frustrações que eu tive na vida, camuflando meus erros e maquiando falsos acertos que eu possa ter cometido. É muito sofrido este processo, de se tornar uma pessoa serena. E algumas vezes chego a confundir essa tal serenidade com falta de crença de que as coisas possam ser boas. Como se fosse aquele calo que se forma no pé quando se joga capoeira há algum tempo. Na verdade está sendo lesado... Mas de tanto doer no mesmo ponto, a região endureceu e ficou insensível.
Será que a serenidade na verdade é um sinônimo para desesperança? Nada mais te surpreende, nada mais te abala, nada mais te desespera. Não importa quanta dor esteja presente, você vai continuar a ser você, vai continuar a tocar a sua vida, vai continuar saindo para jantar com suas amigas, vai continuar viajando para a praia nos finais de semana.
Você vai continuar a dar o melhor de si... E o que tiver que ser, será.
Escrito por Lucky Girl às 11h21
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